domingo, 22 de abril de 2012

Estava em minha cela...

...o ce'u que ja' não via a muito, parecia tão doce quanto as nuvens de algodão que provava enquanto criança no parque de diversões do interior do meu interior... Abertas as grades da cela, como que anunciando a entrada dele, vejo entrar um homem. Magro, alto, esguio e bem vestido, traje elegante, fino, vistoso, branco, vestia ale'm de sua quase tu'nica um relo'gio de ouro, que marcava a falta de 6 minutos para as 6 horas do sexto dia do presente ano. Era um janeiro fati'dico e apontava o correr das a'guas de janeiro... do u'ltimo janeiro, da estação fria de um inverno que seria o derradeiro de minha existência.
Os u'ltimos seis minutos que passei, provei o doce sabor do ranço do u'ltimo caju' que pus em minha boca, jogando fora e deixando de torrar a castanha que me fora reservada, por ter sido privado de minha liberdade e por estar a muito longe de um mundo que um dia me foi familiar.
Aquele homem me encarou com desde'm e disse olhando a grade aberta e falando com voz mansa e sedutora:
- Vai! Estas livre... não tera's de pagar o preço de seus pecados... não tera's de morrer, nem tão pouco encarar aqueles de quem foste algoz...
Olhando para ele, e descrente do que me acontecera, vacilo e caminho em direção a minha redenção, mas antes de me ausentar do destino que me fora reservado, estendo minha mão e acaricio as barras da cela que por muito tempo foram minhas u'nicas companheiras, amigas, confidentes e que me protegiam do mundo la' fora, como protegiam tambe'm o mundo de minha histo'ria e de meus tropeços...
Ao tocar por pouco que foi aquele metal frio e indiferente, me lembrei do quanto fiz, e de tudo que hou para que chegasse e fosse conduzido aquele vil momento, em que minha vida seria roubada, imolada e dada a tantos para que meus pecados fossem finalmente julgados e perdoados por uns poucos...
Olhei para tra's, vi o sorriso do homem e perguntei o preço de minha liberdade, ele me respondeu com sorriso nos la'bios:
- Basta me seguir...
Olhei o homem, examinei suas abotoadoras com diamantes encrustados, seus sapatos negros lustrados...
Voltei e sentei no mesmo banco, me debrucei sobre a mesma mesa, peguei o mesmo la'pis e o mesmo papel branco que encarei por 60 anos sem conseguir escrever um rabisco sequer... Criei coragem e empunhando minha espada, com la'grimas nos olhos, e ciente de meu destino disse ao homem:
- Ja' tenho a Quem seguir...
Encarei minha morte, com paz em meu coração, com a certeza de que não tive a melhor vida, que não fiz o melhor que podia de minha vida, que não fiz uma alma sequer feliz pelo simples fato de ter nascido... que nunca amei ou fui amado, sequer honrei uma u'nica gota de fe' depositada em mim....
O ponteiro dos minutos alcançou o das horas e o guarda-cela me chamou para conduzir-me ao corredor dos u'ltimos passos, para me deitar no u'ltimo leito e adormecer no u'ltimo sono...
Levantei... e com o mesmo olhar triste que carreguei a minha vida toda acenei ao advogado de olhos sombriamente indescriti'veis carregando algo nas mãos que seria o meu legado...
Ao atravessar as grades, amordaçado, algemado aos meus delitos entreguei a carta que deixo ao filho que nunca tive e aos pais que nunca amei, esta carta.

So' você...

Sabe como me sinto atrave's de meu sorriso,
fa'cil,
desvio,
e quase sincero...
so' você e seus olhos vêem atrave's dos meus,
o que realmente sinto...
desenrolam os novelos de devaneios,
confusões, insegurança e mentiras,
que conto pra mim mesmo na esperança de um dia deixar de te amar...
de seguir em frente,
em busca dos olhos,
que ate' mesmo atrave's de meus o'culos,
percebe minhas la'grimas, no sorriso que não dei,
no dia em que você não estava aqui.